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22/1/2010
Combater a barbárie com a luta por outra sociedade: Haiti e Brasil
Documento sem título
O mundo tem acompanhado a tragédia no Haiti, que expôs
ainda mais a grave ausência de direitos que aquele povo tem sofrido. É
importante lembrar que em 1804 os escravos no Haiti lutaram contra seus “senhores”,
na Revolução dos Escravos, conquistando a abolição
da escravatura e sua independência política. Algo nunca visto e
nunca imaginado. Porém, a exploração que já vinha
sido feita deixou sérias marcas, como por exemplo, um solo infértil
devido ao uso para produzir cana-de-açúcar para a Europa. E na
sequência, continuaram inúmeras agressões pela França,
Inglaterra, Estados Unidos, e mais recentemente a "ocupação"
inclusive pelas tropas brasileiras. É um país que foi explorado
e esquecido, cuja sociabilidade ficou muito comprometida também pela
interferência internacional.
O terremoto que destruiu Porto Príncipe somou-se às
outras questões sérias de uma permanente interferência na
autonomia da população, com um Estado duro apenas para reter o
poder, mas não tendo nenhum investimento no seu desenvolvimento, com
instituições corrompidas e ineficazes. Os países estão
divulgando as contribuições que enviam para ajuda humanitária,
mas segundo a ONU somente 9% chegaram efetivamente. Há queixa ainda de
que os países estão agindo com projetos individuais, sem uma coordenação,
o que parece incitar mais tumultos. A tragédia deixou cerca de 200 mil
mortos e incontáveis feridos que padecem sem ajuda efetiva, abandonados
nas ruas em escombros, entre corpos ainda não sepultados.
O Haiti já tinha 380 mil crianças e adolescentes
órfãos. O terremoto ampliou gritantemente este número,
colocando em risco maior a ocorrência de seqüestros para fins de
crimes sexuais e trafico de seres humanos para trabalho escravo.
A tragédia no Haiti escancarou a realidade de um povo
com séculos de conflitos, que não são meramente internos
como tem sido veiculado: a realidade vem sendo impulsionada pela ausência
do Estado democrático e pelas interferências opressivas de outros
países. Em situações de catástrofes defendemos o
apoio humanitário, mas é evidente a sua insuficiência, pois
frente a uma situação com do Haiti sequer consegue distribuir
as doações.
O povo haitiano está sobrevivendo à tragédia
porque estão calejados de sofrer sob a indiferença do mundo. Porém,
a visão superficial da real história pode apenas tornar mais um
fato e logo esquecido. É importante lembrarmos que a historia de opressão
sofrida ao longo dos séculos agravou os conflitos existentes frente ao
terremoto. Diante de tanto sofrimento e desespero, não se abalam os interesses
de governos de todo o mundo. Uma delegação da sociedade civil
brasileira esteve no Haiti ano passado, identificando que 85% dos empenhos do
Brasil era para a repressão, não para ajuda humanitária.
O Brasil está no Haiti desde 2004, e tem certa simpatia pelo futebol,
mas isso não possibilita aperfeiçoar alguma ação
humanitária. Lembremos do objetivo do país em ter a cadeira na
ONU, no Conselho de Segurança. Segundo noticias, ficaremos mais cinco
anos “contribuindo” com o país. Lamentamos que jovens brasileiros
com suas boas intenções estejam sendo mal conduzidos passando
anos sem efetivamente contribuir para mudanças no país. A repressão
e o controle, como já dito, sempre existiu no Haiti, que não precisa
do Brasil para isso. Aliás, a fala do Consul do Haiti em São Paulo
está sendo repudiada por todos que defendem a livre expressao religiosa
e o Estado laico. Há muita tensão com outras opiniões:
do consulado que justificou a fala do seu representante, aos que a banalizam
dizendo que o povo haitiano é homofóbico e preconceituoso (portanto,
que não poderiam se queixar de discriminação). Questões
de violência como a homofobia, lebofobia, machismo, discriminação
e o opressão étnica são estruturais, decorrente de desigualdade
e segregação social, mantida pelo poder político-econômico
de grupos. Neste cenário, a presença internacional também
não tem contribuído para a afirmação da identidade
da população haitiana, pelo contrário.
A luta do povo haitiano é expressao de tantas outras
pelo mundo, como a dos brasileiros, que convivemos com poucos milionários
às custas do trabalho do povo e milhões de pessoas sem direitos
garantidos. Nossa expectativa é que a populaçao mundial possa
refletir sobre as reais causas da miséria, da opressão e da reprodução
da violência. Somos solidários a todos os povos que lutam por dignidade,
por direitos, por fraternidade e por liberdade. Não é,contudo,
com ajuda humanitária em momentos de tragédias que se resume esta
posição, mas com nossa pressão política junto ao
nosso governo brasileiro para que tenha ações efetivas para influenciar
os poderes do mundo. O Brasil está muito “bem visto” mundialmente.
É preciso pressionar para que nosso poder seja utilizado para contribuir
com a ruptura das causas históricas da barbárie.
Assistentes sociais: na luta pela construção
de outra sociedade
Brasil, São Paulo, 20 de janeiro de 2010.
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