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2/9/2010
A Greve Enquanto Instrumento De Luta Da Classe Trabalhadora
Documento sem título
". Pois quem toca o trem pra frente também
de repente pode o trem parar."
(Chico Buarque, Linha de montagem)
Quando há intransigência dos empregadores em
negociar pautas de interesse da classe trabalhadora e este segundo só
possuindo como meio de pressão a sua força de trabalho, é
forçado a utilizar como instrumento de ação política
a greve.
A primeira grande greve brasileira ocorreu em S. Paulo em
1917 quando trabalhadores pararam fabricas na Mooca e no Ipiranga e logo este
movimento contagiou vários outros trabalhadores que pararam a cidade
de S. Paulo. Durante um mês a cidade viveu a agitação dos
comitês de greve e com a morte de um operário em confronto com
a polícia espalhou-se em solidariedade por outras cidades do estado (Campinas,
Santos, entre outras). Esse movimento estendeu-se para várias regiões
do território brasileiro até 1919, sendo impulsionador de debates
no meio operário sobre os rumos do movimento sindical, contribuindo na
promoção dos avanços dos ideais socialistas e fornecendo
as bases para os direitos trabalhistas colocados na CLT.
"São Paulo é uma cidade morta:
sua população está alarmada, os rostos denotam apreensão
e pânico, porque tudo está fechado, sem o menor movimento. Pelas
ruas, afora alguns transeuntes apressados, só circulavam veículos
militares, requisitados pela Cia. Antártica e demais indústrias,
com tropas armadas de fuzis e metralhadoras.
Há ordem de atirar para quem fique parado na rua. Nos bairros fabris
do Brás, Moóca, Barra Funda, Lapa, sucederam-se tiroteios com
grupos de populares; em certas ruas já começaram fazer barricadas
com pedras, madeiras velhas, carroças viradas e a polícia não
se atreve a passar por lá, porque dos telhados e cantos partem tiros
certeiros. Os jornais saem cheios de notícias sem comentários
quase, mas o que se sabe é sumamente grave, prenunciando dramáticos
acontecimentos." Dias, Everardo. "História das Lutas Sociais
no Brasil". Apud Bandeira, M. et alia, op. cit., pp. 56-57.
Outro marco na história das greves no Brasil ocorreu
entre os anos de 78 a 80 no ABC Paulista, tendo seu ápice em 79 quando
180 mil metalúrgicos cruzaram os braços, sendo esta a primeira
greve geral após o Ato Institucional N. 5 do regime militar de 68, que
começa como reivindicação de reposição salarial
contra a super exploração do trabalho e acabou por dar inicio
a toda uma mobilização política no país em busca
de mais liberdade.
No ABC foi realizado, com a força das greves, o primeiro
ato organizado por trabalhadores para exigir anistia ampla, geral e irrestrita
a todos os exilados e perseguidos pelos militares. As elites reagiram com uma
dura repressão ao movimento com Helicópteros do Exército
sobrevoando as assembléias, bombas de gás, tropas de choque, espancamentos,
prisões e várias intervenções nos sindicatos. Mas
nada disto impediu que os metalúrgicos escrevessem no chão do
Paço de São Bernardo a palavra democracia, ato que simbolizou
o motivo maior de continuidade da luta, resistência e de bravura. A passeata
das mulheres dos metalúrgicos pelas ruas do ABC foi o momento de maior
grandeza da solidariedade e sob os olhares da repressão, elas gritavam
liberdade aos seus maridos e companheiros presos e em luta.
O Brasil estava unido ao ABC e de todos os cantos do país
chegavam apoios para o movimento grevista. Os metalúrgicos criaram o
Fundo de Greve, base de sustentação da luta e símbolo da
solidariedade de classe. A partir da paralisação de 79, os trabalhadores
do ABC derrubaram, na prática, a proibição do direito de
greve, mesmo com as pressões e intervenções que os sindicatos
sofreram naquele ano e nos seguintes, resgatando a liberdade de manifestação
dos trabalhadores e também contribuindo com a abertura política
no país.
"Maio de 78 tem suas raízes no cotidiano
operário, tecido especialmente nos primeiros anos da década. Finda
a euforia do 'milagre', o afloramento da crise econômica atingia
ainda mais diretamente a classe trabalhadora, que pautava a sua atuação
nos marcos da resistência contra o binômio arrocho-arbítrio,
superexploração-autocracia, que, entrelaçados intimamente,
impunham ao proletariado uma dura realidade". Antunes, Ricardo "A
Rebeldia do Trabalho (O Confronto Operário no ABC Paulista: As greves
de 1978-80), pp. 13-14, ensaio/Editora da Unicamp, 1988.
Atualmente este instrumento de luta da classe trabalhadora
vem sofrendo com distorções por parte dos empregadores em especial
os gestores públicos do governo do estado de São Paulo que buscam
denegrir a imagem do funcionalismo público manipulando a opinião
pública com a conivência da imprensa, responsabilizando o servidor
público pela ineficiência do estado, acusando-os de serem privilegiados
e de fazerem a máquina pública e a população reféns
das greves.
Ora, tais manipulações ideológicas escondem
que o projeto dos governos neoliberais que defendem o Estado mínimo e
precarizam a máquina pública - não repondo os quadros de
lotação de pessoal, não propiciando as condições
adequadas de atendimento à população demandatárias
dos serviços e não corrigindo as perdas salariais dos trabalhadores
- serve na verdade para desresponsabilização do Estado e
muitas vezes para sucateamento dos equipamentos públicos a fim de justificar
privatizações como vêm ocorrendo e sendo amplamente denunciado
não só pelo movimento sindical, mas também pelo movimento
de saúde do estado de São Paulo.
A classe trabalhadora por meio do movimento sindical grevista
é ainda mais criminalizada quando utiliza este instrumento de luta -
a greve - associada a estratégia de ocupação dos
prédios públicos, a exemplo do que ocorreu recentemente nas greves
das universidades públicas do estado de SP e com @s brav@s companheir@s
do judiciário paulista que permaneceram em greve por gloriosos 127 dias
- mais de 4 meses - e mesmo tendo seus dias descontados realizaram
ocupação do prédio do Palácio da Justiça
onde permaneceram sem comida e água.
"Quando vossas excelências se mostram
indignados ao ver a arquitetura do Palácio em risco, não posso
deixar de registrar que eu, enquanto assistente social, me sinto indignada ao
ver uma criança que sofreu abuso sexual relate esta agressão enquanto
todos na sala de espera ouvem o que ela diz porque este Tribunal não
dá um mínimo de estrutura para que possamos trabalhar com sigilo".
Manifestação da presidente da Associação dos Assistentes
Sociais e Psicologos do TJ, Elisabete Borgianni, durante a ocupação
em 02/06 sobre a falta de condições mínimas de trabalho
aos Juízes que encontravam-se indignados com a "invasão"
do palácio.
Em apoio às lutas dos trabalhadores do judiciário
em greve o CRESS-SP esteve presente em manifestação na Praça
João Mendes, mobilizou e articulou junto a categoria durante o Pré-CBAS/SP
ocorrido no período de 10 à 12 de junho a "Moção
de Apoio a Greve do Judiciário" e ainda no último CBAS realizado
em Brasília participou de reunião com a AASPTJ-SP - Associação
dos Assistentes Sociais e Psicólogos do TJ - SP onde recebeu informes
das colegas e manifestou novamente apoio a luta.
A criminalização do movimento grevista do judiciário
chegou ao ponto da imprensa irracionalmente colocar em suas páginas questões
como falta de água mineral e ar condicionado, itens estes se quer mencionados
nas pautas de reivindicações; estas matérias da imprensa
conservadora buscam sempre sugestionar a população falsas mordomias
ao funcionalismo público e desmobilizar o movimento. Contudo os trabalhadores
do judiciário permaneceram resistindo e realizaram nova ocupação
em 25/08, desta vez na Assembléia Legislativa, entretanto tiveram que
desocupar o espaço durante a madrugada escoltados pela policia militar.
Em 01/09/10 terminou a greve no judiciário com a assinatura do acordo
de dissídio coletivo entre as entidades envolvidas e o tribunal de justiça,
mas segundo as entidades "nova reunião já está agendada
para o dia 6 de outubro e o acordo não é o fim da luta, mas um
importante passo. O estado de greve continua até janeiro, continuaremos
vigilantes para que o TJ cumpra o que assinou." Acompanhe em:http://www.aasptjsp.org
Os trabalhadores da saúde são ainda mais criminalizados
quando deflagram movimento de greve, pois a população adoecida
que procura os equipamentos de saúde não aceita a manifestação;
em decorrência desta particularidade o movimento sindical da área
da saúde vem associando estratégias como o "estado de greve"
onde os trabalhadores se revezam e parte atende a população e
a outra parte esclarece esta mesma população e a comunidade em
geral as situações vivenciadas pela saúde do estado de
S. Paulo, indicando claramente a justificativa das reivindicações,
desmistificando o discurso dos gestores estaduais e colhendo apoio ao movimento.
O mesmo fez os trabalhadores da Fundação Casa
que também entraram em "estado de greve" após assembléia
geral da categoria onde reivindicavam reajuste real, respeito à data
base da categoria, segurança no local de trabalho e mais 82 itens da
pauta de reivindicação. Essa negação do Estado pelos
direitos já conquistados vem criminalizando cada vez mais a organização
dos trabalhadores.
Igualmente criminalizados foram os trabalhadores da educação
do estado de SP, que após manifestação na Av. Paulista
em que reivindicavam melhoria salarial, receberam acusações de
promoverem greve eleitoreira, como se não fosse de conhecimento público
que o salário do professorado paulista foi e continua sendo aviltante.
O CRESS/SP é solidário a luta das trabalhadoras
e trabalhadores servidores públicos e se coloca ao lado de toda classe
trabalhadora; classe trabalhadora esta que utiliza como instrumento de luta
a nobre greve com suas inúmeras estratégias, para a vigília
das conquistas de direitos conquistados pelos nossos antecessores e pela ampliação
dos direitos.
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